riomar melo prosa e verso
Na vitória meus amigos me conhecem. Na derrota eu conheço meus amigos.
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Um texto


“...Voltei para casa. Em casa contei a imensa noticia. Foi então que estourou a bomba. Que estouro! Minha mãe, é verdade, exultou de alegria. Que contentamento! Eu não podia ter dado a boa da velha noticia mais radiosa. Ter um filho padre, um filho sacerdote da sua religião, um eleito do seu Cristo, era dádiva imensa, graça divina, gosto supremo que ela dizia não merecer. Mas foi apenas a minha mãe que se alegrou com a noticia. Os meus companheiros, os amigos, os filósofos do meu quarto, puzeram-se todos a chasquear impiedosamente de mim e a ridicularizar sem dó a minha (como diziam) maluquice. Padre? Você? E eram risadas sobre risadas. Um dos meus irmãos, sobretudo o mais velho de todos nós, o que fazia por esse tempo o papel de chefe de família, esse se opoz de maneira cabal e terminante a minha resolução. Padre? Você está louco? Isso é bom para os pobres de espírito. Mas você? Largue mão de bobagem, menino! Trate de ser advogado, isso sim, trate de casar-se, de dar gente na vida. O que é que vale um padre? Nada. O que é um padre? Um castrado. Ouviu bem? Um castrado! Oh meus amigos, oh meu irmão, pobres cegos que éreis... Cegos que queríes conduzir outro cego. Pois não podíeis, hoje eu bem compreendo, aconselhar-me coisas boas porque tínheis o coração cheio de coisas más; e do que está cheio o coração é que a boca fala. Que é um padre? Um castrado. É verdade. O termo que foi usado, termo tão marcante, de que me lembro com tanta nitidez, termo que se cravou tão ao vivo no meu coração, é, na verdade, o termo certo. Eu recordei-me dele mais tarde, surpreendidíssimo, quando o encontrei, tal qual, na boca divina do próprio Cristo:- “...porque há castrados que assim nasceram do ventre de sua mãe; há castrados que foram castrados pelos homens; mas há castrados (ouvi,meus amigos!) que a si mesmo se castram por amor de Mim. Quem pode ser capaz disso, seja.” E para que alguém seja capaz disso, meus amigos, para que alguém tenha a máscula coragem de castrar-se pelo Cristo, é preciso, saibam-no bem, que o homem enfrente com desassombro, intrepidamente, risadas e achincalhes. É preciso vencer, peito a peito, lutas cruéis. É preciso que o filho corte com seu pai, que a filha se arranque de sua mãe, que o irmão brigue com seu irmão. É preciso a guerra.

 
Paulo Setúbal
Enviado por RIOMAR MELO em 10/11/2019
Alterado em 10/11/2019
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